Os tratamentos de reprodução humana e a epigenética

Os tratamentos de reprodução humana e a epigenética
Cristiane Gobo Cristiane Gobo
29/06/2016 11:44:02 hs

As mulheres que precisam receber óvulos para engravidar têm uma grande preocupação: se o filho que será gerado por elas terá sua semelhança física e comportamental, uma vez que temem que, no futuro, possam duvidar ou desconfiar da origem dos óvulos. É claro que, de início, a Ginoferty – Clínica de Medicina Reprodutiva deixa claro para essas mulheres que todos os cuidados são tomados para que todos os critérios de semelhança entre a doadora e a receptora sejam considerados, bem como respeitar a mesma tipagem sanguínea, para que nunca haja dúvida da criança de que o óvulo foi originado de outra mulher, a não ser que essa receptora deseje, no futuro, contar a verdade – isso será uma opção dela.

 

É bom lembrar que em uma família de vários irmãos não significa que todos serão sósias e que também não serão idênticos ao pai ou à mãe. Do ponto de vista genético, 99,9% dos nossos genes são idênticos. Isso significa que as diferenças que vemos ao nascimento entre uma criança e outra não dependem só de ela ter genes específicos herdados da mãe ou do pai, mas da influência dos efeitos do ambiente que determinam como será expresso esse código genético.

 

Em outras palavras, o DNA (ácido desoxirribonucleico) não é o único responsável pelas características do ser humano e, independentemente da origem do óvulo, são fundamentais os efeitos do ambiente, como o útero, a irrigação sanguínea, a nutrição e até mesmo o modo “como a futura mãe pensa”, os quais podem afetar a expressão dos genes do embrião e a formação e desenvolvimento do novo ser.

 

Os genes podem expressar-se ou permanecer adormecidos, dependendo de sinais provenientes do exterior da célula. Nosso código genético possui verdadeiras “chaves de liga/desliga” que ativam ou inativam a ação dos genes. Quem determina quais genes serão ativados ou não é o ambiente, a que chamamos de fatores epigenéticos. A expressão dos genes começa no útero. A mulher grávida, com seu útero representando o meio ambiente, é responsável pela forma como os genes do bebê serão expressos. Essa fase inicial da vida, as primeiras 40 semanas ou mais, começa a moldar as características da criança ao nascer.

 

Portanto, evidências científicas têm demonstrado que os genes e o DNA não são responsáveis pela especificidade final dos seres humanos, e sim os imprintings genéticos, que fazem com que genes sejam expressos ou permaneçam adormecidos, dependendo de sinais provenientes do exterior da célula. O ambiente, no caso de uma gestação, é o útero da mulher. Assim, tudo o que ocorrer durante a gestação poderá influenciar a ativação ou inativação de genes do futuro bebê. Dessa forma, uma criança nascida do útero de uma receptora será emocionalmente, fisicamente e psicologicamente diferente do que se a mesma criança fosse concebida no útero da doadora do óvulo. Um bebê concebido de um óvulo doado recebe as “instruções” sobre a expressão dos seus genes da mulher que o carrega.

 

Em outras palavras, a mãe que gesta influencia na epigenética do seu filho. O útero assume muito mais do que o papel de uma incubadora, e o desenvolvimento do feto dependerá em tudo do corpo da mulher que o carrega: o oxigênio, os nutrientes, a excreção, o estilo de vida, o uso de hormônios, a exposição a agentes, a alimentação – e a forma como tudo isso é ofertado influencia diretamente a ativação e expressão gênica do embrião. Assim, a receptora determina como será seu filho, até em nível genético!!! A criança que nascerá será física e emocionalmente diferente da mulher que o doou. Em outras palavras, a mãe que gesta influencia o que a criança será, e assim, em nível genético, é seu filho.

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