Tempos que estão mudando

Tempos que estão mudando
Diogo Busse Diogo Busse
24/02/2016 11:19:18 hs

Você provavelmente já ouviu falar sobre novas tecnologias que estão mudando a forma como nos organizamos e, principalmente, como estruturamos o sistema de normas que rege a vida em sociedade. Não se atentar para esta nova realidade reduz drasticamente suas possibilidades de realizações ou, o que é pior, é o mesmo que entregar as decisões mais importantes da sua vida nas mãos de terceiros.

 

Neste verão tive a oportunidade de vivenciar esta nova realidade e fiz várias reflexões. Tirei alguns dias de férias e eu e minha companheira viajamos sem um roteiro previamente definido. No nosso primeiro destino, iniciamos uma pesquisa em um serviço chamado TripAdvisor que nos indicou várias possibilidades de hospedagem. A partir dos depoimentos de pessoas que compartilhavam suas experiências e detalhavam suas impressões de suas estadas, formando uma classificação de pousadas e hotéis, escolhemos o local onde ficaríamos pelos próximos dias. Com as chances de frustração bastante reduzidas, nossa experiência foi inesquecível.

 

Em outra cidade recorremos ao Airbnb, que oferece quartos, ou até mesmo casas e apartamentos inteiros, de proprietários que se propõem a receber hóspedes quando estão ausentes de suas residências. Após encontrar um local que nos interessou, fechamos negócio pelo celular. Em poucos minutos, fizemos o check-in no apartamento onde permanecemos por uma semana, sem assinar qualquer contrato ou papel ou nem mesmo ter encontrado o dono do imóvel. A decoração, os livros e as obras de arte nos permitiram conhecer um pouco o anfitrião, que nos orientou pelo WhatsApp sobre restaurantes, passeios e qualquer coisa que precisássemos encontrar na sua casa. Ele acabou tornando-se um amigo com o qual ainda mantemos contato.

 

Isso tudo me fez refletir que a internet, as novas tecnologias de formação de rede, de compartilhamento, de financiamento coletivo, o acesso à informação e os novos movimentos de impacto social estão mudando radicalmente a forma como nos organizamos enquanto sociedade. As ferramentas estão emancipando as pessoas, que estão afastando-se das barreiras, como a velha burocracia, que sempre atrapalharam o cenário empreendedor. E essas ferramentas podem transformar as esferas em que muitas decisões importantes para a nossa vida são tomadas, como a política e a jurídica.

 

Entretanto, mesmo diante de tantas possibilidades, ainda estamos distantes de saber, por exemplo, como a maioria dos nossos representantes políticos gasta cada centavo do dinheiro público por eles administrado; ainda vemos muitos empreendimentos naufragarem no lodo da burocracia brasileira; e ainda percebemos que mesmo tendo tanto poder, pessoas ainda aceitam ser governadas por homens como Eduardo Cunha, que escancaradamente demonstram não ter nenhuma preocupação que não seja seus próprios interesses e continuam à frente das funções mais importantes dos poderes públicos.

 

Há, contudo, uma mudança cultural importante em andamento que é inevitável e que tem indicado novas formas de interação entre as pessoas. Não acredito que nossos representantes políticos estejam perdendo a importância, mas, sem dúvida, o papel que desempenham está mudando. Senadores e deputados podem até fingir não enxergar, mas Bob Dylan já alertava há muito tempo que há uma batalha lá fora. Muito em breve ela balançará suas janelas e paredes. Enfim, ela adentrará os gabinetes para os tempos que estão mudando.

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