O sonho de uma sociedade divertida

O sonho de uma sociedade divertida
Diogo Busse Diogo Busse
10/05/2016 10:58:17 hs

Se me pedissem que apontasse uma única causa para todos os principais problemas sociais que vivenciamos atualmente – crise política, violência, criminalidade, devastação ambiental, problemas relacionados ao uso de drogas –, eu seria direto: a causa é o processo de formação dos indivíduos.

 

Nossa sociedade foca o desenvolvimento intelectual das pessoas, mas negligencia o lado emocional. Somos preparados para sermos profissionais muito bem-sucedidos em um mercado competitivo, mas seres incapazes de lidar com as emoções mais básicas. Todo o processo pedagógico pelo qual passamos ao longo da nossa vida estudantil é focado no alcance dos objetivos de uma sociedade industrial.

 

Este processo não leva em consideração as múltiplas inteligências das pessoas, a singularidade de cada ser humano. Ao contrário, a educação de hoje é uma educação que vai homogeneizando os indivíduos, que desconsidera as vocações que não servem aos objetivos de uma sociedade industrial. As vocações artísticas são as primeiras a serem estigmatizadas e apagadas dos jovens que procuram manifestá-las, pois estas não lhes renderão um bom futuro. Provavelmente o adolescente músico ouvirá: “Música não dá dinheiro!”.

 

Jovens brilhantes têm seus sonhos ofuscados e suas potencialidades desestimuladas por desejos e planos que foram sonhados por outras pessoas.

 

A meu ver, isso explica a assustadora incapacidade de discutir política de uma forma civilizada; a assustadora incapacidade de frear os impulsos mais instintivos; a violência no trânsito; a depressão; a incapacidade de enxergar beleza na vida e de sentir-se realizado.

 

O importante pensador genebrino Jean-Jacques Rousseau já dizia, há aproximadamente dois séculos, que a educação dos sentimentos deve preceder a educação da razão, pois o emocional já decidiu aquilo que posteriormente será racionalizado. Ele dizia, também, que uma sociedade bem administrada é uma sociedade que carece de poucas leis.

 

Seu pensamento é de uma atualidade impressionante, especialmente se refletirmos sobre a tendência contemporânea de procurar resolver todos os complexos problemas sociais com a elaboração de leis. Quando Rousseau diz que uma sociedade bem administrada não precisa de muitas leis, quer dizer que problemas tão complexos se resolvem com políticas públicas.

 

Em outras palavras, administrações públicas eficientes diminuem os conflitos. Cidades bem geridas, que constituam espaços saudáveis para o desenvolvimento humano, em todos os sentidos – acesso a bens culturais, arte, música, dança, teatro, pintura, cinema, esporte –, que proporcionem sistemas educacionais e de saúde de qualidade, facilitam a identificação do talento que todo ser humano tem, diminuem o potencial de conflito que está no indivíduo, mas que se manifesta na sociedade.

 

Acredito que assim como o intelecto pode ser desenvolvido nas crianças e nos jovens, a capacidade de lidar com as emoções também pode. Com pessoas que se conhecem melhor, viveremos em uma sociedade mais harmônica, mas também muito mais livre, interessante, divertida e plural.

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