Em cima do muro

Em cima do muro
Diogo Busse Diogo Busse
08/04/2016 11:10:15 hs

O cenário político brasileiro atual está bastante confuso. Diante de tantas dúvidas e instabilidade, seria coerente que as pessoas tivessem mais cautela ao manifestar um posicionamento. Não é o que temos visto diante dos mais recentes acontecimentos. As reações mais insanas e violentas a qualquer posicionamento que contrarie o lado que se escolheu para defender, confirmam uma hipótese: muitas mentes estão tão condicionadas que não há mais como pensar, refletir, fazer juízo crítico acerca daquilo que se ouve e que se lê. Há uma descrença tão grande - o que é compreensível - que a sociedade resolveu eleger um grande bode expiatório que explica todos os males do universo: o PT e os petistas. Nunca fui eleitor do PT, mas não compartilho dessa visão. Critico diariamente a gestão do atual governo - não só do federal como também do meu estado, que é do PSDB e tem me envergonhado profundamente - e trabalho pela qualificação do processo político, fazendo oposição na esfera democrática, fazendo reflexão na universidade e estudando soluções concretas para a crise política e econômica que vivenciamos. Contudo, consigo viver em um país administrado por um grupo que não ajudei a eleger. Consigo porque, acima de tudo, defendo a democracia, porque a história nos ensina e porque ao invés de destruir quero construir. Não me agrada a ideia de retroceder a conquistas importantes da humanidade. Um representante deve ter responsabilidade por aquilo que incita nas pessoas. E o que menos se vê, hoje, é responsabilidade nos discursos raivosos daqueles que possuem grande poder de influência, mas que o utilizam para incitar o ódio e a violência. Acho que temos que fazer oposição de qualidade e trocar de governo nas urnas, educando os cidadãos para que tenham ciência do seu poder e também das consequências das medidas que defendem. Vejo que as pessoas estão perdendo a capacidade de refletir. Tudo é interpretado como um ataque aos ideais do seu "time". Pedidos de pessoas e líderes lúcidos para que os brasileiros tenham serenidade são interpretados como "defesa de bandido". Existem divergências demais, coisas estranhas demais, polarização demais, para que eu aceite inquestionavelmente teorias que nos são impostas como verdades absolutas e que têm servido como fundamentos para agressões recíprocas, rompimento de longas amizades e até brigas familiares. Lemos artigos de juristas e dos maiores estudiosos do país afirmando que a operação da PF tem atropelado os princípios processuais mais importantes, ao mesmo tempo em que recebemos textos de especialistas renomados enaltecendo a força tarefa; a condução foi plenamente justificada, mas o circo da imprensa já estava a postos para acompanhar o espetáculo. E ainda querem nos obrigar a vestir uma camisa! O fato é que nossa sociedade perdeu gradativamente a dimensão política que é onde se respeita as ideias e opiniões divergentes, onde se aprende com isso e se constrói em conjunto. Vemos mensagens de colegas advogados dizendo "dane-se a legalidade, o que eu quero é punir a corrupção". Eu também quero, mas o caminho para que isso aconteça também é importante. A observância ao devido processo legal nos protege contra o abuso de poder, arbitrariedades que, cedo ou tarde, podem se voltar contra nós. Subir em cima do muro, diante de tanta confusão, pode ser uma atitude inteligente e também corajosa. Não deixa de ser um posicionamento. Sua visão pode se tornar privilegiada.

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