E se fosse o meu filho?

E se fosse o meu filho?
Diogo Busse Diogo Busse
22/01/2016 15:10:50 hs

Eu me posiciono a favor da descriminalização do porte de drogas ilícitas para uso pessoal. Estudo há muitos anos política de drogas e tenho me manifestado publicamente a favor da medida que está sendo discutida neste momento no Supremo Tribunal Federal.

 

Em um vídeo que gravei recentemente ao sair do STF, onde tive a oportunidade de debater o tema, fui dura e desrespeitosamente criticado e até mesmo agredido com ofensas odiosas. Tais manifestações de violência e ignorância foram devidamente ignoradas – exceto uma, à qual fiz questão de responder.

 

Um sujeito me perguntou: “E se fosse o seu filho usando crack?”.

 

Bom, se fosse o meu filho usando crack, a última coisa que eu desejaria que acontecesse a ele seria um encarceramento em alguma delegacia ou presídio abarrotado de outros criminosos, que ele fosse violentado de alguma forma, julgado ou estigmatizado. Procuraria, com todo amor que um pai pode ter por um filho, orientá-lo, entender as suas razões, os motivos que existem por trás desse comportamento, o que ele estaria buscando, e me colocaria ao seu lado para ajudar.

 

Faço palestras há aproximadamente sete anos sobre política de drogas e, especialmente, prevenção voltada a jovens e seus familiares. Além dos próprios jovens, falo sobre prevenção com muitos pais e educadores e, inevitavelmente, quando estou diante desse público, há sempre alguém que me pergunta: “Diogo, como devo tratar do assunto com meu filho de 15 anos?”.

 

Não há forma mais eficaz de evitar que um jovem desenvolva problemas relacionados ao uso de drogas do que manter o diálogo dentro do ambiente familiar, que gere confiança a tal ponto de um filho poder chegar em casa e abrir-se com seus pais, contando, inclusive, situações de proximidade ou até mesmo experiências com qualquer tipo de substância, seja lícita ou ilícita.

 

O que acontece é que há muitos anos reproduzimos uma cultura que aborda a questão das drogas – e acredita com isso estar fazendo prevenção – sob um enfoque do medo e do terror. Difundimos a ideia de que o uso de algumas drogas, as que são estigmatizadas, viciam no primeiro contato, levam a morte ou a crimes violentos de uma forma imediata, destroem a vida como que em um passe de mágica, e passamos, então, a apostar que esse tipo de argumento irá afastar o jovem de um possível contato com substâncias psicoativas. Contudo, na primeira experiência que eventualmente tenha, o jovem percebe que não era nada daquilo, provavelmente tendo, ao contrário, uma experiência muito prazerosa. A partir daí, perde-se todo o vínculo com esse jovem que, aí sim, pode iniciar uma caminhada perigosa e, o que é pior, bem longe das vistas de seus familiares.

 

É óbvio que uma droga pode causar prejuízo ao jovem ou a qualquer pessoa que faça uso de uma substância que altere o funcionamento do organismo. Contudo, se você deseja ajudar, sinceramente, a evitar que alguém tenha problemas relacionados ao uso de drogas, é imprescindível preservar este ambiente de diálogo que lhe permita entender o que a pessoa está buscando com tal comportamento. É importante entender as razões, os motivos, o que há por trás dessa busca e, assim, iniciar um trabalho de diálogo e acolhimento.

 

É chegado o momento de compreendermos que a cultura do medo e do terror não traz nenhum tipo de informação, tampouco orientação aos familiares que, salvo raras exceções, jamais foram preparados ou receberam informação honesta e tecnicamente adequada para lidar com as drogas no ambiente familiar.

 

É chegado o momento de compreendermos que as pessoas fazem uso de drogas pelas mais variadas razões que não nos cabe julgar. Cabe, sim, orientar os jovens para que identifiquem seus talentos e desenvolvam todas as suas potencialidades, diminuindo as chances de uso problemático de qualquer substância, seja lícita ou ilícita. Em vez da superada cultura do medo e do terror, a cultura do foco nos aspectos positivos de uma vida saudável. Isso é prevenção.

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