Das aproximações surgirão soluções

Das aproximações surgirão soluções
Diogo Busse Diogo Busse
09/06/2016 11:07:20 hs

A sociedade brasileira atravessa um momento muito conturbado e de grande instabilidade. Contudo, mesmo os consensos e tempos de aparente estabilidade, jurídica, política e econômica, são contextos bastante dinâmicos. A sociedade em que vivemos é um fenômeno extremamente complexo, e seu relativo equilíbrio depende de uma variedade muito grande de fatores.

 

Uma das dimensões da vida em sociedade mais debatidas hoje, à qual se atribui grande parte dos problemas contemporâneos, é a política. De fato, é preciso um movimento de união em torno da discussão sobre como temos nos organizado politicamente e como temos escolhido aqueles que irão representar-nos. A união, contudo, pressupõe diálogo, e o diálogo pressupõe disposição para ouvir os outros, principalmente aqueles que pensam diferente. Se não houver essa disposição, haverá somente luta por poder. Poderemos trocar os representantes que exercerão o poder, mas não construiremos nenhum avanço. Aceitar que podemos estar equivocados e que nem sempre prevalecerão os ideais nos quais acreditamos é um bom começo.

 

Há muito mais do que podemos imaginar entre dois polos. De um lado liberais, de outro socialistas. De um lado a esquerda, de outro a direita. De um lado materialistas, de outro espiritualistas. De um lado acadêmicos, de outro pragmáticos. Por que vivemos tempos de tanta polarização? Porque nos desconectamos de quem somos na essência e, agora, quem assumiu o controle de grande parte da vida das pessoas são seus egos, suas personalidades, suas camadas mais superficiais, aqueles papéis que escolhemos para representar e que na verdade não dizem muito sobre quem somos.

 

Um dos movimentos mais interessantes e enriquecedores que podem surgir nessa loucura toda é a aproximação entre os opostos. Vejo isso acontecendo em vários aspectos. As sociedades de tradição ocidental, que durante muitos anos priorizaram o progresso material e o desenvolvimento científico, debruçando-se cada vez mais sobre as mais variadas técnicas de autoconhecimento e desenvolvimento espiritual que chegam ao Ocidente desde o início do século passado. Sociedades de tradição oriental que estimulam as pessoas a fazer autorreflexão desde muito cedo e disseminam sabedorias espiritualistas milenares, preocupando-se também com os progressos materiais que levam mais conforto, higiene e bem-estar às pessoas. 

 

No mundo acadêmico, a ciência aproximando-se do misticismo, da magia e da religião.

 

No campo das ideologias políticas e sistemas econômicos, estas novas propostas acadêmicas que sugerem a superação de um modelo mental cartesiano, mecanicista e reducionista, e que nos convidam a entender a complexidade da vida, tanto social quanto biológica, agora encontram espaço nos corações de muitos políticos e gestores públicos mais sensíveis à mudança e às novas necessidades.

 

Para criticar os aspectos negativos do capitalismo contemporâneo, não precisamos demonizar o capital. É possível defender a necessidade de se diminuir o inchaço do “Estado de Bem-Estar Social” sem que isso signifique retroceder na busca pela concretização dos direitos sociais, além dos individuais fundamentais, considerados conquistas históricas quando encampados na nossa Constituição. Desde 1988, o Brasil escolheu elevar a dignidade humana à categoria fundamental de todo o nosso ordenamento jurídico. Isso significa que todos nós brasileiros, Estado, iniciativa privada, pessoas e instituições, perseguimos o mesmo fim.

 

Uma crise é o auge de uma transição. Ter consciência de que esta dinâmica da vida é natural e até desejável nos levará ao encontro de soluções concretas que surgirão destas aproximações.

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